quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

conversa de lábios

terás tu um irmão? Alguém pelo menos com lábios iguais? Pode ser mais alto, um corpo de metro e noventa será demais? Chegaria-me, se só tivesses setenta!
Escrevo-te a dizer que gostei do nosso beijo, foi cheio, foi sentido, foi desesperado, talvez pouco amado. 
Vejo-te no meu sofá. Ficas bem por lá. Combinam as tuas calças de sempre no fundo ocre calcado. 
Foi um beijo demorado. Recordado também.
Fazes-me lamber galões e fumar cigarros. És um beijo desejado, molhado, desacreditado. Onde se compram beijos assim? Moldes de lábios pensados, que podem ser salgados ou demolhados ou envinagrados, que importa, onde se compram? 
Não, não os quero adocicados. Esses são malvados...
ah sei, só tens uma irmã... e então, beija bem?



 

"Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu. E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei." Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

o homem que transpirava dentro da caixa


vives aí.
eu, desistia de te ver, nunca te veria afinal. assim, com suave carícia, entregava-me ao cerrar de meus olhos e sentia-te o cheiro. és de belo inalar, pequeno homem da caixa. de ombros a préstimo, pouco denunciantes até, para o que quer parecer-se. iguais ao prenúncio cadastrado nos sentidos do sentir. 
enrolas na caixa, tabaco tocado, num deslumbre que existe entre mortalhas, em ânsia de sucumbir o belo, o esguio, o esbelto parecer.  

vives daí.
eu, desistiria de te conhecer, nunca te conheceria afinal. assim, não arriscarei em perder-te, não te roubarei ao sabor em meu sonho de te imaginar. és de belo aparente, meu desejo te ter, pequeno homem da caixa. de olhar escondido, de cor escura em efeitos, raiados a web, fechados a preceito. 

vives na caixa meu amor.

"Procuro tentar entender aquilo que nem mesmo eu sei explicar. Esta luz que me invade aos poucos, talvez, quem sabe, possa me ajudar ... Ou até mesmo possa explicar o que acontece por aqui..."


(desfio para My skin n Under)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

o homem do ar


há o da luz
há o da água
até há o do gás
chegam e contam
quero um do ar
que me tire o ar.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O despenteado do Chiado


Não sei o que pensar, mil suposições se impõe,
quando a meu lado te levo, dentro de mim te procuro.
A mente é algo traiçoeira.
O coração é ratoeira.
Rapinas os meus trilhos de solidão,
ofertas-me sedução.
Ardesse-me a vista,
me pausasse a respiração.
- E então?
não sei o que te dizer.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

o poder de mim

Hoje tenho os olhos quentes. As costas também não estão famosas, julgo ser do sexo que insisto em sonhar. Parte-me o corpo.
Pela manhã, leio Herberto Hélder e avalio os meus esquentamentos como gelo em comparação. A paixão nele fervilha, bem mais feroz e envenenada por um só nó querer. Que são então estas minhas dores de costas? Dói-me bem mais a pele, em boa verdade! a pele.

E escuto o silêncio de estar tão acompanhada por quem não faz sombra. Não há um sol entre nós. Existe uma ideia, que a cada dia se constrói em pessoa, em homem. - " E eu escrevo-te toda" - grita ele de lá. 

Neste quarto que agora emana as primeiras gotas de luz do dia, este se mostrando húmido, que me dá sede de ti. Faço troça de mim, deste meu desejo quase vago, numa barriga cheia de meus toques nocturnos, nunca suficientes. 

E entre as mãos conversamos a cantiga sedutora, como golfadas cristalinas de uma água do Éden que nunca transbordou na terra.




"Estou tão sedenta do maravilhoso que só o maravilhoso tem poder sobre mim. Qualquer coisa que não pode se transformar em algo maravilhoso, eu deixo ir." Anais Nin 


domingo, 26 de janeiro de 2014

semanal

Sempre diferente. Era, sempre diferente, ainda que o dia e hora fossem sempre o mesmo.
Uma rotina sem marcação, subiam ao quarto sem atenção aos degraus, entravam no quarto sem estranhar a luminosidade e conheciam a cama que era a mesma de outras alturas, bem longínquas, onde se gravou um futuro sem fim, num desejo que nunca morrera.
O dia do costume marcava cruzes aos calendários anuais.

Sempre sedentos do que faltava. Amavam-se sem conotação de amantes sociais e fodiam como se o próximo xis nunca viesse a ser cruzado. Não tinham obrigações ou rotinas de sexo, não se cumpria a exigencias. Não existia limitações ou travamentos, mesmo nos dias lesados por tristezas emocionais. 

Acontecia, por vezes, um ser barrado pelos constrangimentos da vida, que o impediria de comparecer àquele quarto de sempre. Ainda assim, não nasciam sentimentos de troca, de perda ou de morte. Despi-se só, tocava-se, amavam-se ao sabor dos cheiros emaranhados pela última vez e descia feliz à cidade. 

"A beleza do espírito, causa admiração; a da alma, estima; e a do corpo, amor." Bernard Fontenelle

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Esperou


Esperava.
Passaram semanas, talvez mesmo meses, perdera a conta dos dias, enterrado num sofá forrado por mantas velhas. O corpo vincara-se ao modelo e este se adaptara às ossadas de seu fiel depositante. Apenas se recordava, que ao fim de algum tempo, deixara de sentir a própria pele, amassada pelos vincos das cobertas empoeiradas. 
Adormecia.
Esperava.
Era um corpo esguio, bonito, tão frágil quanto uma flor campestre.
Feita suposição, passara afinal, mais que meses, arriscou-se falar em anos.
Adormecia.
Esperava.
Adormecia, sonhando sobre o encanto de seus melhores sonhos. Sonhava com o qual lhe ficara gravado na memória, a maior das delicias que outrora usufruíra. Sonhava um sonho vivido por boca tão doce, quente, húmida e aromática como nunca conhecera mais alguma.
Esperava, não sabia bem o quê, talvez simplesmente pelo adormecer e o acordar em dormência, com o sexo ainda palpitante, quente e húmido. E suspirava profundamente e voltava à espera do adormecer.
Passaram afinal seis anos, era o registo da matéria que ficara em pó sobre as cobertas, grande parte também corroídas pela decomposição e por dejectos acumulados, que envenenaram e destruíram de dentro para fora, aquele que fora corpo.
Registou-se, como seu desejo, e tal como ele Esperou, 
a epígrafe a causa de morte: morrera de amor.

"Morrer é que me assusta." Montaigne   

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

anjo sem azo


adorava te lamber o cu.

hoje, com direito a narrador:
   Adelaide, como muitas outras Adelaides, vivia também numa rede social. Criara um perfil selecto, discreto e distinto, fora de porcalhice. Aceitava só os amigos da pequena aldeia e algumas gentes influentes, fora da aldeia, onde habitava no real.
   Certo dia fora tocada, não por Deus, quem era ela para tal toque, mas sim por um anjo sem asas, que reinava umas aldeias abaixo da sua.
  Achou estranho essa coisa do toque, pouco percebia de sua função, mas no mesmo dia, tivera particularmente atenta  à mensagem na missa dominical. "Não sejam descrentes meus filhos e escutai os sinais".
  Entendeu tal toque, um sinal divino do além virtual e retribuiu meio a medo, sem saber que dor ou alegria poderia provocar.
 O anjo sem asas, logo acedeu carinhosamente a igual chamamento, pediu-lhe em seguida, avaliado sem hesitação, a amizade esperada.
 Adeleide pouco teve tempo para respirar, tal bombardeamento surgiu de além terra, assim ele se apressou;
- Olá, eu sou barbeiro e atleta de triatlo, vivo na aldeia Debaixo e pergunto se queres que te faça o jantar?
  Adelaide balbuciou com as pontas dos dedos um agradecimento, mas já ia na sobremesa, lambuzada em delírio num grande papo de anjo.
  O rapaz, afoito ao mato, não desistiu de abrir caminho e tornando-se menos agreste, dedicou-se ao delicodoce, prontificando-se à apanha de um molhe de plantas para a preparação da efusão digestiva.
  Adelaide, uma vez mais agradeceu, recusando tal atenção. Mas o barbeiro lançou-se à naifa,
 - Olá, o que eu quero é saltar-te para cima, foder, foder com prazer, sou atleta, adorava te lamber o cu.


" onde não puderes amar, não te demores." Frida Kahlo