domingo, 26 de janeiro de 2014

semanal

Sempre diferente. Era, sempre diferente, ainda que o dia e hora fossem sempre o mesmo.
Uma rotina sem marcação, subiam ao quarto sem atenção aos degraus, entravam no quarto sem estranhar a luminosidade e conheciam a cama que era a mesma de outras alturas, bem longínquas, onde se gravou um futuro sem fim, num desejo que nunca morrera.
O dia do costume marcava cruzes aos calendários anuais.

Sempre sedentos do que faltava. Amavam-se sem conotação de amantes sociais e fodiam como se o próximo xis nunca viesse a ser cruzado. Não tinham obrigações ou rotinas de sexo, não se cumpria a exigencias. Não existia limitações ou travamentos, mesmo nos dias lesados por tristezas emocionais. 

Acontecia, por vezes, um ser barrado pelos constrangimentos da vida, que o impediria de comparecer àquele quarto de sempre. Ainda assim, não nasciam sentimentos de troca, de perda ou de morte. Despi-se só, tocava-se, amavam-se ao sabor dos cheiros emaranhados pela última vez e descia feliz à cidade. 

"A beleza do espírito, causa admiração; a da alma, estima; e a do corpo, amor." Bernard Fontenelle

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Esperou


Esperava.
Passaram semanas, talvez mesmo meses, perdera a conta dos dias, enterrado num sofá forrado por mantas velhas. O corpo vincara-se ao modelo e este se adaptara às ossadas de seu fiel depositante. Apenas se recordava, que ao fim de algum tempo, deixara de sentir a própria pele, amassada pelos vincos das cobertas empoeiradas. 
Adormecia.
Esperava.
Era um corpo esguio, bonito, tão frágil quanto uma flor campestre.
Feita suposição, passara afinal, mais que meses, arriscou-se falar em anos.
Adormecia.
Esperava.
Adormecia, sonhando sobre o encanto de seus melhores sonhos. Sonhava com o qual lhe ficara gravado na memória, a maior das delicias que outrora usufruíra. Sonhava um sonho vivido por boca tão doce, quente, húmida e aromática como nunca conhecera mais alguma.
Esperava, não sabia bem o quê, talvez simplesmente pelo adormecer e o acordar em dormência, com o sexo ainda palpitante, quente e húmido. E suspirava profundamente e voltava à espera do adormecer.
Passaram afinal seis anos, era o registo da matéria que ficara em pó sobre as cobertas, grande parte também corroídas pela decomposição e por dejectos acumulados, que envenenaram e destruíram de dentro para fora, aquele que fora corpo.
Registou-se, como seu desejo, e tal como ele Esperou, 
a epígrafe a causa de morte: morrera de amor.

"Morrer é que me assusta." Montaigne   

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

anjo sem azo


adorava te lamber o cu.

hoje, com direito a narrador:
   Adelaide, como muitas outras Adelaides, vivia também numa rede social. Criara um perfil selecto, discreto e distinto, fora de porcalhice. Aceitava só os amigos da pequena aldeia e algumas gentes influentes, fora da aldeia, onde habitava no real.
   Certo dia fora tocada, não por Deus, quem era ela para tal toque, mas sim por um anjo sem asas, que reinava umas aldeias abaixo da sua.
  Achou estranho essa coisa do toque, pouco percebia de sua função, mas no mesmo dia, tivera particularmente atenta  à mensagem na missa dominical. "Não sejam descrentes meus filhos e escutai os sinais".
  Entendeu tal toque, um sinal divino do além virtual e retribuiu meio a medo, sem saber que dor ou alegria poderia provocar.
 O anjo sem asas, logo acedeu carinhosamente a igual chamamento, pediu-lhe em seguida, avaliado sem hesitação, a amizade esperada.
 Adeleide pouco teve tempo para respirar, tal bombardeamento surgiu de além terra, assim ele se apressou;
- Olá, eu sou barbeiro e atleta de triatlo, vivo na aldeia Debaixo e pergunto se queres que te faça o jantar?
  Adelaide balbuciou com as pontas dos dedos um agradecimento, mas já ia na sobremesa, lambuzada em delírio num grande papo de anjo.
  O rapaz, afoito ao mato, não desistiu de abrir caminho e tornando-se menos agreste, dedicou-se ao delicodoce, prontificando-se à apanha de um molhe de plantas para a preparação da efusão digestiva.
  Adelaide, uma vez mais agradeceu, recusando tal atenção. Mas o barbeiro lançou-se à naifa,
 - Olá, o que eu quero é saltar-te para cima, foder, foder com prazer, sou atleta, adorava te lamber o cu.


" onde não puderes amar, não te demores." Frida Kahlo


sábado, 28 de dezembro de 2013

falta um quarto para hotel



Podes ser tu quem quiseres. Podes ser um, podes ser uma. Podes vir vestido de estórias ou despida de nadas. Vem com pedidos ou com ausências. Serás vazia, serás imenso. Com mãos fartas de medo, barriga de frio, gritos de silêncio.
Podes ter um passado de segredos ou um presente incerto. E então, enquanto não vem o amanhã, tropeça na sombra, chuta qualquer segundo, sê flácida de conteúdo, carente de testemunho. 
És e serás, quem serve apetites, quem dá vontades. És desejo sem vista futura, um querer apessoado. 
Chega sem promessas escritas, sem dizeres falados e não olhes, não encares e toca, perfura, vasculha, remexe e acaba por nos fazer vir. 
Depois vem a madrugada, que alcança a quase saudade e nos dá a liberdade. Leva-nos um pedaço do tempo, do que foi quase nada, foi um só prazer desejado por dois corpos cansados, naquele quarto de hotel.


“Só por existir, só por duvidar, tenho duas almas em guerra. E sei que nenhuma vai ganhar. Só por ter dois sóis, só por hesitar” Jorge Palma

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sê-lo, é sempre um SELO de natal,


Presente para:

porque é natal, porque sendo brega ou não, um selo, não é só sê-lo é parecê-lo, porque o Leão copia e eu também, porque para quem aqui passa e fica é sempre um ar de graça, porque sim e porque não e porque todos vós escrevem maravilhosamente, me encantam, me alegram, me fazem sonhar, me mimam! Obrigada, a vossa ,
Adelaide 

"Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar  quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um."
Florbela Espanca

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Depois da guerra

houvera alguns mortos e claro muitos feridos. Não muito diferente de outra guerra qualquer. Mas hoje era noite de véspera de natal.
Mais puta que ontem, estava emaranhada na matança do animal. O sangue escorria por uma racha fina da pedra centenária do balcão daquela cozinha. O peru dera trabalho de sobra, agora havia que o rechear. Seriam muitos à mesa, feitas as contas, todos os sem abrigo da avenida.
O corpo ressentia-se da venda da noite anterior, as pernas fracas, as ancas doridas e algumas nódoas negras nos braços da pressão exercida no climax de tantos os que passaram por ela.
Seria enfim, uma ceia de luxo, compensaria a guerra travada, o suporte de todas as bombas corporais.  
À mesa, respirava outro ar, sem ajuda de anjos celestiais para a manter crente. Sentia-se mulher, magma na sua generosidade. Afinal, era já natal.


" Ideal seria que todas as pessoas soubessem amar, o tanto que sabem fingir" - Bob Marley

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

que se foda!


Fodemos tanto ontem que acordei cansada. Sem clemência fui violada a seguir pelo toque do despertador.
Anteontem, foi com o gajo que monta estores, algures na zona do Cacém. Esta semana aliás não tive descanso, aquela cama foi só girar! E minha linda, é só rodar, nunca chego a arrefecer! 
- Mas Adelaide, continuas com um corpo pedinte e um olhar de quem não fode ou fodeu faz tempos! 
Depois, hoje, ainda antes de tomar o pequeno almoço, que faço sempre a correr, foi um fodão com o homem pombo!
- Homem pombo, Adelaide?
Sim é columbófilo e fode que dói, estou toda amassada! E quando chegar a casa terei outro animal já a aquecer-me a cama!
- Será um Leão Adelaide?
Não sei, não sei, não me posso atrasar muito neste nosso almoço, antes de picar o cartão ainda vou dar outra com o gajo que trabalha nos escritórios da sirva-elimpe!
- Mas Adelaide, vais ao escritório do gajo? 
Não! É ali mesmo no meu carro!
- Ele está lá?
Claro! Dentro do porta bagagens.
- !!!????
São as particularidades e facilidades de navegar na net! Fico tão cansada amiga...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

sure death!

Este dia tem as suas particularidades. Um de novembro. Não sei se me traz bom augúrio, talvez, ou simples cisma e embirração. 
Opto por algo estranho. Penso em pessoas que me encheram o corpo mas nunca a mente, cheios de promessas que nunca duraram, deixaram só pedaços perdidos na parte detrás da memória.
Vamos deixar a mente descansar e lembrar que o coração continua a bater com o mesmo tesão que entre pernas. Vamos colocar a descansar o passado, deixá-lo morrer com justiça.
Estou carregada de multidão, desejo e destino. Ardo de vontade de ser penetrada e chamo o teu nome, sejas tu, quem queiras ser. Anda, vem, faz-me sentir vibrar, como num mergulho em mar revolto. Anda e dá-me, faz-me a vontade. Usa-me de novo, és bem vindo à devoção, serás lenda e degustação.
Já te oiço, te vejo, te escuto a quebrar todas as mentiras e a viveres mais esta ilusão. Ei, sinto-te o fogo, continua, não pares. Rouba-me, engole-me, chupa-me e absorve!
Quente, ardo, suspiro, anseio dessa tua felicidade...


"Daí-me outro  viés de ilusão"



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

só não fode, quem não quer


Mais uma teoria de bolso aqui da vossa Adelaide (nome sugerido pelo nosso Leão da Estrela, gostei!).  Atentos ao histórico;
 "No inicio do século a sexualidade ainda era assunto proibido e pouco divulgado, tanto é que Freud teve que transpor uma série de tabus sociais do período para poder divulgar os seus trabalhos científicos que buscavam ampliar o entendimento da sexualidade humana e as suas múltiplas facetas, até que houvesse uma aceitação dos seus trabalhos como uma referência científica do funcionamento da mente." 
Seria Freud um grande maluco que se emaranhava em altas festarolas de índole sexual, para que, as suas teorias, para além de as comprovar cientificamente, as compadecesse em própria pele? Ele era uma faceta! Ficam as aspas...
Bom, mas os prazeres da carne viveram jubilo nos gloriosos anos 20, anos dourados, das pérolas, dos vestidinhos escorridos, bom chamariz ao apetite sexual, acompanhados de muito absinto. Tal como a revolução sexual dos anos 60, muita maluquice uma liberdade perfumada a erva, as roupas soltas e coloridas, liberdade de movimentos e de exploração. E é bem resumido, porque isto não é uma aula de história da mentalidade.
Eis que rodamos o calendário e estamos propriamente nos primeiros anos deste novo século. O que temos? Que Freud´s se apresentam à teoria? Que drogaria ajuda à libertação da mente e do corpo, que nos dê largas ao acontecimento, soltando-nos dos condicionalismo, que se queira ou não, está-nos lacrado à carne, quando mergulhados em água de nome benta! 
Hoje, só não fode quem não quer. Acompanhados de elixir de todo o tipo, líquidos, snifados, mastigados, introduzidos em qualquer orifício corporal. Confesso que os O.B encharcados de whisky na nossa senhora da Agrela, que eu sou católica, me baralha o sistema!
Nada mudou, a malta quer é cegada! A tecnologia avança fornecendo somente novas ferramentas. Fiquem atentos!